LENDA III

O Visconde de Moreira do Rei era uma pessoa importante, político muito influente no burgo fafense, um homem querido pelo seu povo, devido aos seis feitos heróicos em prol da sua comunidade, que tal como todo o fafense da época, não era homem de levar para a sua terra as ofensas que lhe fossem dirigidas nas deslocações a terra alheia. Em determinado dia, transportado no seu velho coche até à capital não levou em linha de conta o mau tempo que se fazia sentir no dia da partida. A viagem feita ao longo das
estradas em terra batida que mais se assemelhavam a autênticos pântanos, mesmo sendo feita através de atalhos, não fez ganhar tempo. Mas, como um azar nunca vem só, um dos cavalos partiu a ferradura, obrigando-o a coxear em andamento.
À procura de ferrador, o nosso homem perdeu muito tempo porque teve de percorrer umas boas dezenas de quilómetros até o encontrar. O cavalo já ferrado, com uma peça nova, lá se aparelhou e patas a caminho ao som do “chilrear” do andamento do coche, lá levaram o nosso Visconde até à capital. Com todos estes contratempos somados, o deputado fafense chegou bastante tarde à sessão das Cortes, que estava já a chegar ao seu termo.
Um Marquês, destacado deputado lisboeta, conhecido pelo seu mau feitio, censurou o Visconde, chamando-lhe “cão tinhoso”. Este, fingindo não ouvir o insulto, manteve-se aparentemente calmo durante o decorrer da sessão. No final, nos passos perdidos das Cortes, o Visconde dirigiu-se ao local onde se encontrava o Marquês em cavaqueira pegada com um grupo dos poucos amigos que ainda conseguia ter, apesar da sua arrogância, a fim de tirar satisfação sobre o ocorrido durante a sessão. O fafense, ali mesmo diante de todos os presentes, repreendeu o “malcriado” lisboeta pelo insulto que tinha sido alvo aquando da sua chegada atrasada à reunião. O Marquês, continuando a fazer justiça ao seu mau feitio, provocou o Visconde, atirando-lhe ao rosto as finas luvas que retirou apressadamente das suas mãos para arremesso. O sinal estava dado – o confronto nessa situação era inevitável. Ao ofendido competia-lhe escolher as armas para o duelo. Era então uso e costume em duelos semelhantes utilizar-se as espadas ou as pistolas para lavar a honra do ofendido. Em vez disso, o fafense apressou-se a arranjar dois fortes varapaus para surpresa de todos os presentes. O Marquês, não conhecendo a arte de manejar o pau, levou tamanha “coça” que ficou com o corpo cheio de negras. Sem forças para continuar, o insurrecto lisboeta retirou-se humilhado do recinto ouvindo dos assistentes que, entretanto, se juntaram ao primeiro grupo, em gargalhada geral, um grito em uníssono:
“VIVA, VIVA A JUSTIÇA DE FAFE”, vitoriando o nosso herói, o Visconde Moreira do Rei, porque conseguiu aquilo que até aí ninguém tinha ousado fazer – dar uma lição de porrada ao mal educado Marquês. O “Barão de Espalha Brasas” quis deixar bem patente esta versão prosaica da “JUSTIÇA DE FAFE”, que é hoje uma herança bem marcante para os filhos de Fafe, escrevendo-a em poema.
O monumento à “JUSTIÇA DE FAFE”, ex-libris da cidade, é uma homenagem às gentes de Fafe bem representadas pelo homem pobre que, de cacete na mão, dá um “arraial de pancadaria” ao homem rico. Este monumento é o orgulho de todos os fafenses que levaram longe o seu bairrismo próprio desta dita rude mas boa gente, que deixou essa marca na história e os caminhos abertos a mais uma versão lendária que de “boca em boca” chegou até nós.